Conheça a Clínica
 
 
 
 
 
 
 

Arts by Naturale

a península

senschualidade

transição para o século XX

van gogh

salvador dali e millet

michelangelo

museus

exercício de criação

frida kahlo e rivera

munch e klint

tarsila di portinari

tempos antigos

conheça a arte

a linha do tempo 1

a linha do tempo 2

museu virtual 1

museu virtual 2

museu virtual 3

museu virtual 4

museu virtual 5
Clique nas imagens para aumentar

 

Van Gogh,  a Tragédia e a Cor

 

Era uma manhã quente do verão de 1888 em Arles, sul da França. O sol quente e a luz mediterrânea que atraíram tantos pintores também trouxeram aquele artista, que carregando um cavalete, telas e tintas caminhava pelos campos à procura não da bela paisagem, que se mostrava benevolente, mas da emoção, da cor. Esse homem veio do norte, da  pequena cidade holandesa de  Grootzundeter, onde nasceu em 1853. Em sua vida estiveram presentes sempre, dualidades extremas, a tragédia e o maravilhoso. A tragédia na sua história pessoal, o maravilhoso na expressão da sua arte. 

exterior de café a noite na place du forum em arles van gogh otterlo rijksmuseun kroller-muller 1888 (203kb)

Exterior de Café, à Noite, na Place du Forum em Arles- Van Gogh

1888 -Otterlo, Rijksmuseun Kröller-Müller

O amarelo avermelhado faz contraste com o azul escuro da noite. A luz e a cor no amarelo e o brilho das estrelas fazem a atmosfera emocionante desse quadro.

A loucura, a pobreza, a incompreensão, a amargura, a tristeza e a solidão, marcam sua vida. Sob o sol forte do verão de Arles, pinta rápido, com força. Procura. "Mas o caminho que sigo, tenho de manter, se não fizer nada, se não estudar, se não procurar, então estou perdido". Com estas palavras, Vincent Van Gogh, o homem que pintava nos campos de Arles, resume a sua vida. Ele não sabia naquele momento, e nunca veio a saber, que já havia encontrado. Havia encontrado a expressividade da cor.

uma tarde em arles foto de francischelli 2007 (171kb)

Café em Arles

Foto do autor

Uma tarde em Arles em 2007

"Sob um sol forte, tanto a sombra própria, quanto a sombra projetada dos objetos e das figuras tornam-se totalmente diferentes e é tão colorida que somos mesmos tentados a suprimi-las." Van Gogh fala sobre o efeito que a cor lhe provoca. Os impressionistas privilegiaram a luz como objeto da pintura. Van Gogh ultrapassou isso usando a luz e a cor. A sua técnica característica era o uso de grossas camadas de tinta. Às vezes usava mesmo todo o conteúdo do tubo sobre a tela e então modelava com o pincel. No início usava traços de tintas, à maneira dos impressionistas e anos depois passou a usar as pinceladas em espiral e em círculos. Entre as cores, a que mais o fascinava era o amarelo, que tem um papel fundamental em sua obra. "Ao exagerar nas cores, quero expressar-me com força". A cor era usada não para representar um aspecto externo, e sim para ser a expressão da mente e emoções do pintor. Às vezes usava uma só cor e com variações tonais obtinha a forma que queria.                                                                                                                                                      

Pintou durante 10 anos, mas os trabalhos dos últimos 4 anos é que deram força à sua obra. Van Gogh, junto com Cézanne e Gauguin, foi a porta para a Arte Moderna, que depois é definitivamente aberta por Pablo Picasso. Iniciaram o que é considerado como o Pós – impressionismo, que inclui sob este rótulo uma vasta tendência vanguardista. Van Gogh foi o elo na cadeia da evolução da arte clássica para a arte contemporânea. E o novo foi a redescoberta da emoção, que sempre existiu no passado da arte. Os pintores pré – históricos, quando representavam animais, pintavam com a emoção de um ritual, em que queriam a força do animal que seria abatido na caça. Os egípcios, gregos e romanos colocavam na pintura, sobretudo a vida, e os pintores medievais pintavam a emoção da religião. A Renascença e o Neoclassicismo atingiram a perfeição da reprodução do mundo tal como era visto e as emoções eram menos importantes e foram deixadas de lado. Van Gogh foi o primeiro artista, que trouxe de volta a expressão das emoções ao que deu preferência ao invés da execução perfeita da obra. 

a noite estrelada van gogh 1889 new york metropolitan museum of art (172kb)

A Noite Estrelada

Van Gogh

1889

New York , Metropolitan Museum of Art

Note as formas espiraladas do céu, que dão um efeito impressionante. Um acontecimento cósmico. A força de expressão é nítida aqui.

Van Gogh influenciou um grupo de artistas alemães e austríacos que foram chamados expressionistas. O Expressionismo foi um movimento especialmente importante, posterior ao Impressionismo, com duração imprecisa entre 1905 e 1920. Definido como "Qualquer forma de arte que coloque os sentimentos acima das observações". Os expressionistas alimentavam fortes sentimentos à respeito do sofrimento humano. Preocupavam-se com a pobreza, a violência e a paixão.  Enfrentavam os fatos da vida como ela era. Os seus líderes, claro, também incompreendidos, foram expulsos da Alemanha pelos nazistas. Ernst Kirchner, Erich Heckel, Schmidt Rottluff, Otto Mueller, Franz Marc, Wassily Kandinsky, Otto Dix, Oskar Kokoschka, Egon Schiele, herdaram não só a cor e a emoção de Van Gogh, Gauguin e Cézanne, herdaram também a rebeldia, que então passando por Picasso e Dali, levou à "Pintura Abstrata" e a toda liberdade da arte atual.

o quarto do artista van gogh 1889 chicago art institute of chicago (96kb)

O Quarto de Van Gogh em Arles

1889

Van Gogh

Chicago, Art Institute of Chicago

Uso de cores puras, harmoniosas e contornos bem nítidos. Tem um rico efeito cromático. Van Gogh pretendia mostrar calma com esse quadro. Mas o que se vê é expectativa, a perspectiva do chão propositadamente alto e enviesado e as peças em desalinho mostram instabilidade, que atingia o pintor quando fez essa obra.

Vincent era um homem de bons sentimentos, foi missionário, e era capaz de dar as próprias roupas e comida para os mais pobres. Mas não conseguia viver segundo os valores de sua época, não se relacionava com a maioria das pessoas e nem mesmo ganhava o mínimo para o sustento. Não conseguiu ter uma família. Nunca se deu bem com as mulheres e quando se apaixonava era sempre um desastre. Recebeu durante toda a vida ajuda o necessário para viver, de seu irmão, Theo, que também não era rico. Um emocionante exemplo de solidariedade desinteressada. O irmão, quatro anos mais novo, dele cuidou como de uma criança.

Vincent Van Gogh produziu pouco mais de 800 quadros. Recebeu apenas uma crítica favorável em vida. Albert Aurier escreve positivamente sobre ele no "Mercure de France", em 1890. Um mês depois, ele vende o primeiro e único quadro de sua vida, "O Vinhedo Vermelho", pela pequena quantia de 400 Francos. Cem anos depois é vendido "O Jardim das Flores" por 83,6 milhões de dólares, o maior valor já pago por uma obra de arte. É irônico ler as proféticas palavras de Van Gogh "Não posso evitar os fatos de que meus quadros não sejam vendáveis. Mas virá o tempo em que as pessoas verão que eles valem mais que o preço das tintas".

girassóis 1888 stiftung national museum van gogh (131kb)

Girassóis - 1888

Stiftung National Museum

Quase todo pintado em amarelo a cor que preferia influenciado pelas gravuras japonesas. Apenas a variação de tons de amarelo, alguns riscos azuis e as folhas verdes fazem essa criação única.

  Mas outra vez a tragédia. Existem quadros de Van Gogh que são falsos. São mesmo?  A polêmica agitou o mundo das artes e até mesmo o mundo financeiro tal os valores atingidos por sua obra. Talvez isso interesse para os negócios milionários do comércio de arte. Mas para os admiradores anônimos esta discussão não tem nenhum valor. O importante foi o que Van Gogh criou, se alguém copiou, só fez divulgar o seu gênio incomum.

marcela ernst ludwig kirchner 1909 stockolm moderna museet (23kb)

Marcella

Ernst Ludwig Kirchner

1909

Stockolm, Moderna Museet

Neste quadro expressionista nota-se as cores fortes, e a emoção, influência de Van Gogh, que dão ao quadro uma idéia de expectativa melancólica. A espera resignada pelo que só a retratada e o autor sabem.

A vida de Van Gogh foi um exemplo da incompreensão humana. Procurou a amizade e nunca encontrou, deu a solidariedade para quem não soube receber, sonhou com uma comunidade criativa de artistas que nunca conseguiu implantar, nunca viu o reconhecimento de sua obra enquanto vivo. Sentiu a rejeição por seu comportamento irregular, o que acabou na sua expulsão do convívio das pessoas. Certamente a não aceitação das pessoas fez a tragédia de Van Gogh. Talvez, se Van Gogh soubesse que realizar é o que é importante, sem esperar o reconhecimento ou o agradecimento. Se percebesse que a opinião dos outros não importa quando se tem certeza de que se fez o melhor, a sua vida teria sido menos sofrida.

 Sobrou em sua vida apenas Theo, com quem sempre se correspondia. O irmão o compreendia e o amava. Não era um artista, não produziu nenhuma obra, mas é admirado, por quem conhece a sua história, por seus sentimentos e comportamento fraternal. É muito fácil ajudar com o que sobra ou com o que se obtém dos outros. Theo não dava as sobras, dividia o pouco que tinha, sem esperar retribuição. Vincent morreu, morte trágica, em julho de 1890 e Theo morreu 6 meses depois.  Escreveu Charles Terrasse: "Não quiseram separar aqueles que tanto se amaram durante suas vidas, Theo o irmão sublime e Vincent o pintor dos sóis silenciosos e dos girassóis de ouro. Repousam lado a lado em Auvers-sur-oise. E, na admiração universal que suscitam, seus dois nomes são apenas um".

Van Gogh foi o primeiro passo para chegar à idéia de arte contemporânea. A arte hoje é vista como a expressão de um conceito, de uma emoção, através de qualquer veículo. Esta visão totalmente aberta e livre não seria atingida sem a rebeldia de Van Gogh. A história da arte é uma história, felizmente, sem fim. Outros movimentos estão acontecendo e mesmo com a rapidez da informação, com a TV, a Internet, os jornais e revistas é impossível se avaliar o que provavelmente só será reconhecido pelas futuras gerações. Mas a história de Van Gogh nos incita a ficar de olhos abertos e sem preconceitos, olhar sem julgamentos para a arte que está sendo criada agora, procurar o novo e talvez, porque não, ter a ousadia de também criar.

gabriele miunter pintando em kallmunz wassilly kandinsky 1903 munique stadtische galerie im lembachhaus (119kb)

Gabriele Munter pintando em Kallmünz

Wassilly Kandinsky

1903

Munique, Städtische Galerie im Lenbachhaus

As cores não são tão vivas, mas a influência de Van Gogh está presente nas pinceladas grossas e rápidas. Kandinsky iria mais tarde chegar à abstração.



 

Todas as informações e textos são produzidos sob patrocínio da Clínica Naturale.Direitos são reservados. A publicação e redistribuição de qualquer conteúdo é proibida sem prévio consentimento. copyright © 1998-2009 Clínica Naturale. last actualization: