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Um café com Jean-François Millet e Salvador Dali*
Era uma tarde como outra qualquer da
primavera em Paris. Em uma mesa de calçada, no Café de la Paix na Place de
L’Opera, dois homens conversavam.
- Introspecção! Esta é a palavra que
melhor resume a sua obra, Millet. O que influenciou toda a sua vida foi a
perseguição que o atingiu por causa das suas afinidades com o socialismo.
Se você fosse apolítico, sua obra teria maior liberdade. Observei a resignação,
dos que não podem se expressar com liberdade, no seu quadro “Ângelus”. Talvez
seja por isso que ele atingiu profundamente a minha consciência. Você
sofreu com as opiniões dos outros, eu, o oposto, nunca me resignei com os
hipócritas.
- Dali, ser apolítico também é uma
posição política e você foi expulso do movimento Surrealista exatamente
por ser apolítico. E ainda foi chamado de louco!
Dali solta uma de suas costumeiras gargalhadas histéricas.
- Você tem razão Millet, fui expulso. A
diferença entre o Surrealismo e eu, é que eu sou Surrealista. Fui expulso da
escola de Belas Artes, por contestar a capacidade dos professores, fui expulso
da minha casa, por procurar o amor. Mas nunca fui expulso da vida, vida que
compreendi como poucos. Ah, não sou louco! A minha lucidez atingiu um nível de
qualidade e de concentração comparável a poucos neste século. Essa sociedade cínica,
monstruosa e ingenuamente inconsciente, só joga o jogo sério para melhor
esconder a sua loucura. Hipocrisia é a verdadeira loucura.

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Sonho causado
pelo vôo de uma abelha em volta de uma romã um segundo antes de despertar
1944
Salvador Dali
Coleção
Particular
Gala é o
personagem do sonho que só poderia ser sonhado por Dali. |
- Na verdade eu não era exatamente socialista
e muito menos revolucionário. - Respondeu Millet. - Sou filho de camponeses e
vi muito de perto o difícil trabalho no campo. A terra traz aos que nela
trabalham muito pouco. Quando vim para a cidade também vi gente
desempregada, e com fome. Não considero o trabalho honesto algo capaz de gerar
felicidade, constatação que faço com muito pesar. Sendo Humanista, falei sobre
o valor do trabalho do homem que foi o que me fez ser perseguido pela Revolução
de 1948. Muitos morreram ou foram deportados por defenderem o seu trabalho e
lutarem contra a fome. O que aconteceu naqueles dias, não foi uma luta política
da classe operária ameaçada, e sim o reclamo dos que nada tinham. Foram
estas experiências que tornaram a minha obra introspectiva, silenciosa, como o
trabalho resignado dos humildes.
-Você é fatalista, Millet!-Exclamou Dali.
-Eu leio a Bíblia desde criança e nela vi retratada a paisagem rural das
pequenas cidades ligadas ao campo. -Continuou Millet. -A Bíblia, minha origem
no campo, a revolução, o Humanismo e a vida das pessoas simples, dirigiram o
meu caminho na arte. A perseguição que sofri por minhas tendências políticas me
fez detestar pessoas de mente estreita sejam ricos ou pobres. Não sou
fatalista, Sou só a expressão do meu tempo, descrevo o que é real.

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O Toureiro
Alucinógeno
Salvador Dali
1968
Imagem dupla. Uma
das mais fascinantes técnicas da história da pintura. A repetição da Venus de
Milo faz aparecer a face de um toureiro.
Salvador Dali Museum – St Petersburgo USA |
Dali , sorria
ironicamente, mas parecia aceitar o que dizia Millet.
-Ah, os surrealistas também brigaram
comigo por minha interpretação pouco respeitosa de Lênin, e principalmente
porque falei em Hitler. Não compreenderam que ria dele. Mentes surrealmente
estreitas! Aliás, eu seria o primeiro a ser exterminado se caísse nas mãos do
nazismo, eu, Salvador Dali, um histérico degenerado!
-A perseguição política me fez voltar ao
campo, às minhas origens - continuou Millet. -O que foi uma ótima
decisão. Ajudei a criar a Escola de Barbizon. E acredito que os jovens
impressionistas, até mesmo Monet, receberam a minha influência. Aqueles maus
dias me fizeram mudar, criar.
Não leio a Bíblia, disse Dali. –Acho que
o céu não está em cima, ou em baixo ou à direita ou à esquerda, está no centro
do peito do homem que tem fé. No entanto, ainda não tenho fé e temo morrer sem
céu. Mas meu ponto de contato com o divino, onde procuro e posso encontrar Deus
é no amor, por Gala, eternamente minha mulher. Gala, só ela me mostra a
vida, a crença mágica no Divino. Gala me revela no amor a sensualidade extremada.
Fascínio e extremos foram uma constante em minha vida. A minha obsessão mais
forte, meus críticos (gargalhadas) dizem ser o dinheiro, pois erraram! Gala é o
meu fascínio, e além dela só o seu quadro o “Ângelus”, consegue me atingir.

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Espanha
Salvador Dali
1938
Museu Boyman van Beunigen- Rotterdan
Referência a
guerra civil espanhola. A última guerra lutada por ideais. A cabeça da imagem
feminina é formada por figuras em combate retirado da “Adoração dos Magos” de
Leonardo da Vinci. |
Dali continuava, parecendo transtornado, seus olhos, anormalmente
abertos, brilhavam.
-A minha força interpretativa, influenciada pelos sonhos, sentiu o mito do seu
quadro, Millet. Os elementos individuais têm uma associação irracional - Existe
algo mais no tema. Não é só o casal, em um momento mágico de prece vespertina,
existe mais alguma coisa. O que é Millet?- Disse Dali, quase suplicando por uma
revelação.
Naquele café, a alma parisiense estava representada. As pessoas nas mesas
conversavam, sem pressa. O café, o vinho, a água, o chá eram saboreados
lentamente. Em uma mesa, um casal jovem. Na outra, perto das colunas, uma
senhora idosa, só, lendo um livro. Em outra mesa, duas amigas, e próximos, um
pai e sua filha. Uma bela mulher estrangeira, revelada por sua sacola de
turista, observava com a atenção dos perspicazes, aquela cena, que mais parecia
um balé, procurava entender e de alguma forma participar daquela paz. Ela já
sabia que o principal prato nos cafés de Paris não era para ser degustado, era
o sentimento que estava sendo servido. Sentir a si próprio, ao outro, aos
outros, o livro, a praça, a vista da Ópera. O café, a água, o vinho e os
alimentos, lentamente consumidos, eram só coadjuvantes, onde a vida era o
principal. As pessoas falavam, mas também sabiam ouvir. Completamente integrado
àquela atmosfera, numa mesa, ao lado de Millet e Dali, um estudante lia sobre
história da arte, enquanto um copo de vinho descansava em sua frente.
Sussurrava, para ajudar a memorização, enquanto se preparava para uma prova...

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Homem Feto
1943
Salvador Dali
Salvador Dali Museum – St Petersburgo USA
Representa um
novo momento do mundo |

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As Respingadeiras
1857
François Millet
A ligação de
Millet com a paisagem rural foi uma marca do realismo. |
Realismo: Coubert afirmou “Não posso pintar
um anjo. se nunca vi um”. Essa afirmação pode apresentar o Realismo
caracterizado por uma representação detalhada, acurada, da natureza e da vida
contemporânea. Os realistas eram críticos da sociedade contemporânea,
retratavam as desigualdades da condição humana contra o fundo sórdido da
revolução industrial. Jean François Millet pode ser caracterizado como um
realista, por suas posições e pinturas mostrando o trabalho no campo.
Surrealismo: Movimento iniciado em 1924, que
se definia como: “O puro automatismo psíquico, que visa a expressar o
verdadeiro processo do pensamento, livre do exercício da razão e de qualquer
processo estético ou moral”. Acreditavam que o inconsciente era uma fonte rica
de imagens artísticas, e davam grande importância ás idéias de Freud. Os
surrealistas acreditavam que podiam melhorar o mundo e a reconciliação e o
idealismo eram pontos importantes em suas convicções.
A Revolução de 1948, na França: Havia
tensão entre republicanos e socialistas na França. Por causa do grande
desemprego foram criadas turmas de trabalho para a construção de obras públicas
em Paris e seus arredores. Cerca de 120 mil pessoas foram contratadas. O
Congresso achava que o pagamento desses funcionários era um pesado fardo para o
país. Os empregados foram demitidos e perderam a sua capacidade de
sobrevivência. Organizaram-se e lutaram sem esperanças, contra as forças
armadas do governo. Mais de 3000 foram mortos, 12000 degredados e os
intelectuais e artistas simpatizantes dos movimentos populares, entre eles
Millet, foram perseguidos. Alguns acham que os homens lutaram por uma posição
de classe, mas a maioria enxerga que a luta era só por comida. Após a
revolução, Luís Napoleão Bonaparte sobrinho de Napoleão Bonaparte, aproveitando
a situação instalada, assumiu o poder com o título de Napoleão III. Entre 1861
e 1875, com projeto de Garnier, foi construída por Napoleão III a Ópera de
Paris e depois foi construído o luxuoso Café de la Paix, na praça em frente à
ópera.
Momento Surreal, de certa forma a
revolução de 1848 levou à construção do Café de la Paix, onde agora
conversavam o perseguido Millet e Dali...
No café de la Paix, onde o sonho surrealista materializado permitia que Dali
encontrasse Millet, um estudante continuava a ler...
Jean François Millet: Nasceu em 1814, Filho de um pequeno fazendeiro da
Normandia, norte da França. Millet precocemente mostrou seus dons para a
pintura. Foi para Paris em 1838. Durante muito tempo viveu em extrema penúria.
Em 1840 foi convidado para uma exibição no Salon, patrocinado pelo governo
francês. Dois anos mais tarde, casou-se. Voltou a exibir seus trabalhos no
Salon e teve boa aceitação. Após a revolução de 1848 foi perseguido pelas suas
tendências socialistas. Mudou-se para Barbizon, onde seria um dos principais
expoentes da chamada Escola de Barbizon, um grupo de pintores, que se
instalaram nessa cidade. Do grupo, entre outros, fazia parte Théodore Rousseau,
Diaz, Daubigny e Corot. Em 1858 pintou o “Ângelus”, sua pintura mais famosa,
que no século passado foi o quadro mais reproduzido no mundo e foi comprado por
uma grande soma. O Ângelus esteve exposto no Louvre e atualmente se encontra no
Museu d’Orsay, em Paris. Millet era um Realista e teve grande influência para
os artistas mais jovens. No fim de sua vida, seu trabalho tinha alguma
afinidade com o dos impressionistas. A marca da obra de Millet são as pinturas
retratando a vida no campo, uma paisagem quieta e bucólica, com um tom de
introspecção, quase tristeza. Jean François Millet morreu em 1875.
Salvador Dali: Nasceu em 1904 na região da
Catalunha, Espanha, portanto 29 anos após a morte de Millet. O interesse pela
arte foi precoce e com seis anos fez o seu primeiro quadro. Tinha uma
personalidade extraordinária. Foi para a escola de Belas Artes de Madrid de
onde acabaria expulso por seu comportamento rebelde. Em 1930 juntou-se aos
Surrealistas em Paris, grupo liderado por André Breton, do qual também fazia
parte o poeta Paul Elouard. Dali foi expulso do grupo Surrealista por sua
posição apolítica.

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O Carro Fantasma
1933
Salvador Dali
O início das
imagens duplas. A cabeça do condutor é uma construção ao fundo.
Yale University |
Dali
apesar de ter vivido em Paris e depois nos Estados Unidos, sempre esteve ligado
à sua terra natal Figueres e a cidade litorânea próxima, Cadaques, onde tinha
uma casa. Sempre representou suas paisagens e formas em sua obra. Conheceu
Garcia Lorca, Picasso, Miró e especialmente Freud, por quem tinha forte
curiosidade e interesse. Com Luís Buñuel fez o filme “Um Cão Andaluz”, marco no
cinema de arte. Escreveu vários livros e ensaios e o libreto do Ballet de Gala,
encenado em Veneza. Em dezembro de 1936 foi capa da revista Time, e começou a
conhecer o sucesso econômico. Foi criticado pelos seus colegas surrealistas, que
reconheciam a sua genialidade, mas criticavam a sua bem sucedida estratégia de
marketing. Suas excentricidades faziam-no ganhar cada vez mais dinheiro, até
mesmo com a venda de perfumes. O chamaram depreciativamente, de “Avida
Dollars”, palavras que podiam ser formadas com as letras do seu nome. Dali
nunca se importou muito com as críticas, recebendo-as jocosamente. Em junho de
1982, Dali recebe o título de Marques de Puból, por reconhecimento do governo
espanhol.
Em
1929, Paul Elouard e sua mulher Gala Elouard visitaram Dali em sua casa em
Cadaqués. Dali pintou o retrato de Paul Elouard, a quem admirava, e ficou
fascinado por Gala. Quando terminou o retrato, Gala não era mais mulher de
Paul. Dali começou a viver com Gala de quem nunca se separou e que se tornou a
única mulher de sua longa vida. A paisagem da sua terra natal, Gala e o Ângelus
de Millet foram citações constantes na obra de Dali. Gala era uma mulher
deslumbrante, extraordinária, muito à frente de sua época. Por causa da ligação
com uma mulher divorciada, Dali foi expulso da casa paterna.
Dali
deixou em testamento o conjunto de seus bens e da sua obra para o governo
espanhol. Seus quadros estão nos mais importantes museus de arte moderna do
mundo. O seu Museu Teatro em Figueres é o segundo mais visitado da Espanha,
perdendo apenas para o grandioso Museu do Prado. Em S. Petersburgo, na Flórida,
Estados Unidos, se encontra o Museu Salvador Dali, com a coleção de E. A. Reynolds Morse. As famosas montanhas russas
de Tampa, cidade vizinha a S. Petersburgo não fazem a cabeça rodar como a obra
desse gênio da Catalunha, que pode ser vista no seu museu americano.
A
contribuição de Dali para o surrealismo foi o que ele chamou de Método
Paranóico-Crítico, que ele explicava como uma forma de conhecimento irracional,
baseado num delírio de interpretação. Era a capacidade do artista de ver formas
nas coisas mais triviais como nas nuvens, nas cinzas ou nas manchas das
paredes. Dali associava esta atividade a uma forma de distúrbio mental chamado
paranóia, que é caracterizada por ilusões e alucinações crônicas. Embora não
fosse paranóico ele simulava esse estado e dizia “a diferença entre eu e um
louco è que eu não sou louco... eu não posso entender porque o homem é capaz de
tão pouca fantasia”. E para Dali a fantasia era apenas o começo...
Millet e Dali: Dali sempre foi fascinado, da
forma extremada que o caracterizava pelo quadro de Jean
François Millet, “Ângelus”. Este fascínio se tornou uma obsessão e o levou a
produzir várias interpretações “paranóico-críticas” das figuras do Ângelus.
Dali acreditava que havia algo mais no tema do quadro, para ele não era só a
reverência da prece vespertina, que se demonstrava, faltava algum elemento
fantástico. A preocupação era tão grande que levou Dali a escrever em 1938 um
livro só sobre este quadro, intitulado: “O trágico Mito do Ângelus de Millet”.
Muitos trabalhos de Dali tinham referência explícita ou escondida ao Ângelus.
No Café de La Paix,, Dali e Millet ainda
conversavam.
- Millet, Eu revelei em minha vida o meu
consciente e o meu subconsciente. Os meus quadros me mostram por inteiro,
talvez daí venha a minha obsessão por sua obra. Ela revela o seu mundo, mas não
revela você.
- É impossível me conhecer
completamente, posto que nem eu mesmo me conheço, eu sou um e sou sete. A
ambigüidade é a minha marca. Você tem razão Dali, existe alguma coisa mais
naquele quadro
O estudante continuava lendo e sussurrando...

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O Ângelus
1858
Jean François Millet
Museu D’Orsay Paris
O quadro que
impressionou Dali. A emoção transmitida por este quadro talvez seja uma das
maiores na História da Arte. |
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Angelus
Museu d'Orsay
Paris |
Atavismo do
crepúsculo
1933
Salvador Dali
Kinstmuseum Berna
Uma entre muitas
referências de Salvador Dali ao quadro de Millet |
A ciência e a arte escondida: Estudos
detalhados com raios X revelaram uma fascinante descoberta. As suspeitas do
pintor espanhol Salvador Dali sobre o quadro Ângelus de Millet, tinham
fundamento. Foi descoberto que no quadro, Millet havia pintado originalmente o
filho morto do casal de camponeses. Uma forte expressão do Realismo. O pintor
achou muito chocante a cena e retocou o quadro para a forma atual, apagando a
figura da criança.
No café, o pai que conversava com a sua
filha, estava feliz porque, surpreso e gratificado vira que ela aprendia
rapidamente sobre a vida, e já podia seguir em frente sozinha.
O jovem casal falava sobre Dali e Gala: -
Gala morreu em 1982, Dali em 1989. Ficaram juntos 50 anos, ela foi o motivo de
sua inspiração constante. Depois da morte de Gala, Dali viveu retraído e inconsolável,
aguardando o esperado momento de se reencontrar com quem nunca se separou. A
moça dizia que eles viveram o que só para poucos é permitido viver, o amor
protegido pelo divino, intenso, único e eterno.
A senhora idosa, lia e era feliz porque
continuava bela, porque na vida tinha conseguido a sabedoria.
As duas amigas conversavam e se apoiavam
porque sabiam que a amizade era rara nos dias de hoje. Os verdadeiros amigos se
contam nos dedos de uma mão. Os outros, os invejosos e os de mente estreita, simplesmente
não interessam, são como se não existissem.
O estudante havia aprendido com a
história de Dali e Millet que criar é o que importa. Podem tirar o poder, podem
destruir e roubar idéias e ideais, mas a capacidade de criar e sentir não pode
ser tirada nunca.
Então aconteceu, um forte barulho, todos
correram aos gritos de bomba! Bomba! Dali e Millet aproveitaram a confusão e
foram para o seu lugar no Cosmos. Um lugar reservado por Deus para os que podem
criar sentir e amar. A bomba era só o estouro de um pneu de ônibus. Foi a
paranóia dos parisienses com os atentados terroristas que criou a correria.
Medo dos terroristas que são os tristes representantes modernos da
intolerância, que sempre houve no mundo entre os iguais que pensam que são
diferentes.
A linda turista deixou cair no chão da
Praça de l’Óperá um jornal de sua terra, e depois que a confusão passou foi
conhecer a Ópera de Paris. Olhando a beleza da Ópera, ela estava com a sensação
de felicidade melancólica, que o sonho há muito esperado, quando realizado
provoca. Ela também há muito tempo, havia aprendido a amar, a sentir, a
lembrar.
O jornal caído no chão mostrava nas manchetes: Sem-Terras Com Fome Realizam Saques no Nordeste. Fábricas de Auto Peças
Demitem. Governo Ameaça Demitir Funcionários. Medidas Econômicas Provocarão
Demissões em Massa nos Estados e Municípios. País Apresenta o Maior Índice de Desemprego
das Últimas Décadas.
É, como na
revolução de 1848, os poderosos continuam pensando que o sofrimento causado
pelo desemprego e a fome de muitos, pode ser a redenção de um país...
Escrito
na década de 90, quando a inflação era muito alta e as liberdades pós-ditadura ainda não haviam sido
completamente devolvidas ao povo brasileiro.
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